Papel transparente
Dentro de casa são ao milímetro as certezas embrulhadas. Condensam-se as vontades, embalam-se as letras de papel e fecham-se as janelas, as frestas, os armários de canela. Lá fora um lago de água roxa esmurrada pelo vento. Um nenúfar oco deixa cair a última história. E suspira. Juro que suspira. Se tivesse voz, soltaria um gemido, um caldo morno de Inverno a borrifar a paisagem.
Lá dentro de casa, o grito não é mais grito. Há paredes debruçadas sobre o corpo que morreu perto de ontem. Tantas paredes.
E lá fora no lago, a água já não pede sede nem flores nem tartarugas subaquáticas. Há nesta perda matéria de estudo para um quadro a tinta-da-china. Traçado a reboliço e inconstância, embrulhado em papel transparente.
(Faz hoje três anos que renasci.
E nas mãos dos médicos ficou toda a morte que eu trazia cá dentro.)
Publicado por flor_do_mar em
12:01 AM
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