maio 28, 2006

When it’s up to me


(Foto de Michel Sandré)

Quando me ouço em voz baixa - baixinha,
naquele teu vento que me traz presa a um murmúrio,
sei-me concha no caminho do pensamento
à espera de um mar que me envolva num eco de areia.

Quando há nevoeiro nos sonhos,
cumpro vagarosamente o meu papel
de candeia acesa no limiar de uma nuvem do avesso,
neste compasso de chuva onde me resguardo.

Quando não há vozes nem sonhos,
faço um ninho nas pálpebras
e renasço na falange de um dia inquebrável.

Posted by flor_do_mar at 04:33 AM | Comentários: (2)

So far away

Tenho saudades do tempo em que criava sonhos lilases.
O meu rosto era um discurso e o meu nome era um tapete macio
para ser percorrido sílaba a sílaba, na tua boca.
A minha esperança era longa como a maratona.

Posted by flor_do_mar at 04:32 AM | Comentários: (2)

No meu peito


(Foto de Aira Manna)

Aqui, onde o tempo estremece,
onde nós fomos a pausa do beijo,
amo-te mais acertadamente
do que os ponteiros da memória.

Posted by flor_do_mar at 03:10 AM | Comentários: (0)

Shit!


(Foto de Michal Podobycko)

O amanhã não quer saber de juras de amor, serenatas ou maresias nocturnas. Quer ser mais forte do que o próprio mar que se arrasta nas lembranças. Gosta de aventuras extra-temporais, extra-conjugais. Gosta de remexer no passado e exibir-se ironicamente no presente. Como quem diz ‘agora cheguei eu, sem culpa das tuas mãos escorregadias’. E nós a vermos tudo a cair-nos aos pés, de costas para o tempo, sem acreditarmos nas perdas.


Posted by flor_do_mar at 03:04 AM | Comentários: (2)

Incomplete

Nos cantos desamparados do meu quarto encontrei um domingo por acabar.
Porque é ao domingo que tudo começa. Com o descanso a repousar no sonho.

Posted by flor_do_mar at 02:29 AM | Comentários: (0)

Há que tocar

Um jardim quer-se inteiro.

É por isso que
a pétala pede um chão,
uma vida e uma sombra.

Na berma das minhas mãos está a flor.

Posted by flor_do_mar at 02:25 AM | Comentários: (0)

maio 25, 2006

Pontos de vista


(Foto de Graça Loureiro)

"A mão é o lado afiado da mente" (Jacob Bronowski)

- “e o lado guloso do amor”, atrevo-me a acrescentar.

Posted by flor_do_mar at 03:07 AM | Comentários: (4)

As zangas do vento

Ultrapassas-me
a velocidade da voz
quando silvas.

Será que também carregas
amores em contra-mão
fora de estação
e sem margem de manobra?

Se nos unirmos amanhã
faremos uma tempestade perfeita?

Posted by flor_do_mar at 02:51 AM | Comentários: (0)

(...)

Hoje precisei ainda mais de ti.
Que me abraçasses e me dissesses que vai tudo correr bem.

Posted by flor_do_mar at 02:49 AM

maio 24, 2006

Daquilo que sinto


(Foto de Adinda Gosal)

Se o que sinto tivesse tamanho,
não caberia em qualquer lugar.
Apenas na luz de um vaga-lume,
na erva-doce de um fim de tarde
ou no amarelo de um girassol.

Se o que sinto tivesse tradução,
não caberia em qualquer palavra.
Apenas na espuma de um beijo,
no pulsar de uma carta escrita à mão
ou no fôlego de um banho de pele.

Se o que sinto tivesse cheiro,
não caberia em qualquer odor.
Apenas no recanto da terra molhada,
na estrada de relva acabada de cortar
ou no abraço de um eucalipto alvoraçado.

Posted by flor_do_mar at 02:29 AM | Comentários: (3)

maio 23, 2006

Será?

“O Sol liberta mais energia num segundo do que tudo
o que a humanidade já consumiu em toda a sua existência”

- Vejo que alguns suspiros não contam para as estatísticas.

Posted by flor_do_mar at 02:45 AM | Comentários: (0)

Inversão de marcha

Numa próxima vida, quero começar tudo ao contrário.
Quero nascer velhinha, com as mágoas e alegrias bem medidas,
crescer até à idade adulta e mudar as cores da minha sorte,
e continuar a crescer até ser criança, com a memória intacta
e um sabor a espuma renascentista no canto da boca.

Posted by flor_do_mar at 02:38 AM | Comentários: (2)

Recordações

Sobe-me ao pensamento
o chão de madeira,
a pressa do elevador,
a gata que gosta de sofás,
o cheiro suave
embrulhado nas tomadas eléctricas,
a mala de viagem no chão,
os crepes enrolados da Telepizza,
os sons de Chocolate
e uma lembrança
de Quando o Amor Acontece.

Posted by flor_do_mar at 02:27 AM | Comentários: (2)

maio 22, 2006

O lado simples


(Foto de Keith Carter)

Penso em ti
e a tua pele incendeia-me o vestido,
despoja-me da roupa interior
e aloja-se no meu cérebro,
onde nunca usei trajes de festa.

Posted by flor_do_mar at 02:16 AM | Comentários: (2)

Penso no amor que ficou por fazer
quando o amor deixou de o ser


(Foto de Pedro Gomes)

Faríamos amor mais subcutâneo se o amor te tocasse do lado de dentro?

Do lado da pele, o amor ausenta-se. O frio amanhece. O Inverno acontece.

Posted by flor_do_mar at 01:44 AM | Comentários: (2)

maio 21, 2006

Afraid

Na auto-estrada do amor não se paga portagem, mas a gasolina está tão cara...

Posted by flor_do_mar at 04:49 AM | Comentários: (3)

maio 20, 2006

Wireless love


(Foto de Guili Pitarch)

Alguém me explica como é que uma sms pode saber tão bem,
a ponto de nos deixar com a adolescência aos pulos nos dedos?

Posted by flor_do_mar at 06:18 PM | Comentários: (3)

Nunca reparei que eras verde, meu amor

Uma pesquisa de astrónomos da Universidade John Hopkins, nos EUA,
apresentou uma conclusão inusitada: a cor do Universo é verde-piscina.

Posted by flor_do_mar at 03:45 AM | Comentários: (0)

Tempo

Tento lembrar-me que já soube viver sem ti, mas não consigo.
Tu foste o primeiro dia do resto da minha vida.

Posted by flor_do_mar at 03:33 AM | Comentários: (0)

Um mundo perfeito


(Foto de Sílvia Costa)

Há dois anos eu ainda sonhava com horários dos comboios e tinha uma papoila que dormia comigo. Via o mundo na diagonal, sempre com a cabeça inclinada, a espreitar por entre os passos das pessoas, numa felicidade sorridente de não me saber de pé e ter a certeza que era assim que eu queria estar. Porque quando se sonha, faz-se a roda, a esparregata e o pino. Escreve-se um hino.


Posted by flor_do_mar at 03:24 AM | Comentários: (0)

Don't you dare

Moro no tempo da chuva,
numa poça sem remetente.

Não queiras visitar-me.
Sairás molhado
e com as palavras por dizer
amarrotadas na algibeira.

Agora não.
Esta chuva miudinha
ainda faz estragos,
ainda despenteia
e mancha os olhos.

Não venhas
porque vais ensopar-te
com tudo aquilo que restou
do nosso chão infértil.

A poça é minha
e hoje não quero
que me contornes.

Posted by flor_do_mar at 02:26 AM | Comentários: (0)

A Claridade

A claridade coroa-se de cinza, eu sei:
é sempre a tremer que levo o sol à boca.

(Eugénio de Andrade)

Posted by flor_do_mar at 02:11 AM | Comentários: (0)

"O mar enrola na areia..."

O amor não se arremessa
nem se remete. Estende-se.

Posted by flor_do_mar at 02:10 AM | Comentários: (0)

A espera

Não há mais sublime sedução do que saber esperar alguém.
Compor o corpo, os objectos em sua função, sejam eles
A boca, os olhos, ou os lábios. Treinar-se a respirar
Florescentemente. Sorrir pelo ângulo da malícia.
Aspergir de solução libidinal os corredores e a porta.
Velar as janelas com um suspiro próprio. Conceder
Às cortinas o dom de sombrear. Pegar então num
Objecto contundente e amaciá-lo com a cor. Rasgar
Num livro uma página estrategicamente aberta.
Entregar-se a espaços vacilantes. Ficar na dureza
Firme. Conter. Arrancar ao meu sexo de ler a palavra
Que te quer. Soprá-la para dentro de ti
até que a dor alegre recomece.

(Maria Gabriela Llansol)

Posted by flor_do_mar at 01:43 AM | Comentários: (0)

...


(Foto de Joyce Meffert)

Às vezes as crianças gritam sobre flores isoladas dentro delas, e então ficam com uma cor absorta encravada na garganta. As crianças não falam quando estão dentro do silêncio.

(Herberto Helder)

Posted by flor_do_mar at 01:33 AM | Comentários: (0)

maio 17, 2006

A caminho


(Foto de Jeff Singer)

Vestida de saliva num abraço de rio,
avanço sobre a tua pele madura
de trigo, uvas e pão fresco.
Serei sempre inquilina atordoada
na tua vindima de Primavera.

Posted by flor_do_mar at 02:40 AM | Comentários: (0)

maio 16, 2006

Manhã


(Foto de Theresa M.)


Entre o primeiro abrir e fechar de olhos,

a luz do quarto cheira a jasmim

(silencia-me os sentidos)

e há na parede maior um quadro que não reconheço.

Talvez o tenha pintado durante a noite

a meio de um sonho mais agitado

tal é o escarlate que corre na pele emoldurada

(devo olhar melhor?)

Não sei quantas horas dormi nesta saudade

sei que despertei com a boca a miar por ti

(não, não estou com o cio)

Talvez seja sempre assim

e só hoje, neste breve pestanejar,

tenha dado por mim fora de mim.

Posted by flor_do_mar at 02:51 AM | Comentários: (0)

“Não, não sou o único”

Aceitarmos uma perda é um processo complexo, pois implica que nos reconciliemos com o coração dos outros. Chega-se, na maioria das vezes, a uma paz difícil. Paz porque nos sentimos acompanhados numa dor milenar – sim, afinal não somos de outro planeta, afinal também acontece aos outros - e difícil porque vai doer sempre, seja em que século for.


Posted by flor_do_mar at 02:38 AM | Comentários: (0)

maio 15, 2006

Do tempo dos sobreiros e outros passeios


(Foto de Pedro de Leon)

Dá-me um trago
de sorriso,
um nome atrevido
no teu olhar de rapina.

Dá-me uma pausa,
um banco para descansar
nos intervalos
dos nossos êxtases.

Dá-me
uma prancha de cortiça,
um espelho retrovisor
e a minha alma
em câmara-lenta.

Posted by flor_do_mar at 02:01 AM | Comentários: (0)

It’s oh... so private

Se alguém perguntar por mim,
digam que me apeei no firmamento
e que estou à espera de uma estrela rosácea
que me leve até à janela de um quarto
com vista para a estrada do paraíso.

Posted by flor_do_mar at 02:00 AM | Comentários: (0)

maio 14, 2006

Primeiro beijo (e todos os outros)

Foi doce e arrebatadoramente ávido. Molhado, a escorrer desejo.
Suave, macio, como um rebuçado de seda a percorrer-me a boca.

(Daqueles que deixam o coração aos pulos,
com passagem directa para as nuvens.
Daqueles que nos ficam para sempre nas pálpebras.)

Quando a tua boca encaixava na minha
havia fogo, hipotenusa e mar.
Euforia desconjuntada numa duna de sede.

Pudesses beijar-te a ti mesmo e saberias do que falo.

Posted by flor_do_mar at 03:36 AM | Comentários: (6)

Há sempre uma certa palidez na saudade


(Foto de Aira Manna)

Não me falem em saudades boas.
Não há saudades más. Há saudades.


Que nos atarantam

– e este é um termo fresco e primaveril,
dir-me-ia alguém, contrariando assim
o que sei sobre a saudade –

que nos deixam soluços nos olhos.

Posted by flor_do_mar at 03:10 AM | Comentários: (3)

Do amor e outras coisas não banais

Do lado de dentro do vidro fosco
das manhãs ensonadas de raiares,
nasce o bocejo onde me aprumo.

É nesse momento que te amo mais,
quando acordo e sei que existes.
Moro no teu milagre.

Posted by flor_do_mar at 02:59 AM | Comentários: (0)

Elogio do amor puro

Quero fazer o elogio do amor puro. Parece-me que já ninguém se apaixona de verdade. Já ninguém quer viver um amor impossível. Já ninguém aceita amar sem uma razão. Hoje as pessoas apaixonam-se por uma questão de prática. Porque dá jeito. Porque são colegas e estão ali mesmo ao lado.
Porque se dão bem e não se chateiam muito. Porque faz sentido. Porque é mais barato, por causa da casa. Por causa da cama. Por causa das cuecas e das calças e das contas da lavandaria.


Hoje em dia as pessoas fazem contratos pré-nupciais, discutem tudo de antemão, fazem planos e à mínima merdinha entram logo em "diálogo". O amor passou a ser passível de ser combinado. Os amantes tornaram-se sócios. Reúnem-se, discutem problemas, tomam decisões. O amor transformou-se numa variante psico-sócio-bio-ecológica de camaradagem. A paixão, que devia ser desmedida, é na medida do possível. O amor tornou-se uma questão prática. O resultado é que as pessoas, em vez de se apaixonarem de verdade, ficam "praticamente" apaixonadas.


Eu quero fazer o elogio do amor puro, do amor cego, do amor estúpido, do amor doente, do único amor verdadeiro que há, estou farto de conversas, farto de compreensões, farto de conveniências de serviço. Nunca vi namorados tão embrutecidos, tão cobardes e tão comodistas como os de hoje.
Incapazes de um gesto largo, de correr um risco, de um rasgo de ousadia, são uma raça de telefoneiros e capangas de cantina, malta do "tá tudo bem, tudo bem", tomadores de bicas, alcançadores de compromissos, bananóides, borra-botas, matadores do romance, romanticidas. Já ninguém se apaixona? Já ninguém aceita a paixão pura, a saudade sem fim, a tristeza, o desequilíbrio, o medo, o custo, o amor, a doença que é como um cancro a comer-nos o coração e que nos canta no peito ao mesmo tempo?


O amor é uma coisa, a vida é outra. O amor não é para ser uma ajudinha. Não é para ser o alívio, o repouso, o intervalo, a pancadinha nas costas, a pausa que refresca, o pronto-socorro da tortuosa estrada da vida, o nosso "dá lá um jeitinho sentimental". Odeio esta mania contemporânea por sopas e descanso. Odeio os novos casalinhos. Para onde quer que se olhe, já não se vê romance, gritaria, maluquice, facada, abraços, flores. O amor fechou a loja. Foi trespassada ao pessoal da pantufa e da serenidade. Amor é amor. É essa beleza. É esse perigo. O nosso amor não é para nos compreender, não é para nos ajudar, não é para nos fazer felizes. Tanto pode como não pode. Tanto faz. É uma questão de azar. O nosso amor não é para nos amar, para nos levar de repente ao céu, a tempo ainda de apanhar um bocadinho de inferno aberto.


O amor é uma coisa, a vida é outra. A vida às vezes mata o amor. A "vidinha" é uma convivência assassina. O amor puro não é um meio, não é um fim, não é um princípio, não é um destino. O amor puro é uma condição. Tem tanto a ver com a vida de cada um como o clima. O amor não se percebe. Não dá para perceber. O amor é um estado de quem se sente. O amor é a nossa alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende. O amor é uma verdade. É por isso que a ilusão é necessária. A ilusão é bonita, não faz mal. Que se invente e minta e sonhe o que quiser. O amor é uma coisa, a vida é outra. A realidade pode matar, o amor é mais bonito que a vida. A vida que se lixe. Num momento, num olhar, o coração apanha-se para sempre.


Ama-se alguém. Por muito longe, por muito difícil, por muito desesperadamente. O coração guarda o que se nos escapa das mãos. E durante o dia e durante a vida, quando não esta lá quem se ama, não é ela que nos acompanha - é o nosso amor, o amor que se lhe tem.


Não é para perceber. É sinal de amor puro não se perceber, amar e não se ter, querer e não guardar a esperança, doer sem ficar magoado, viver sozinho, triste, mas mais acompanhado de quem vive feliz. Não se pode ceder. Não se pode resistir.
A vida é uma coisa, o amor é outra. A vida dura a vida inteira, o amor não.
Só um mundo de amor pode durar a vida inteira. E valê-la também.

(Miguel Esteves Cardoso)

Posted by flor_do_mar at 02:53 AM | Comentários: (0)

Dentro de ti

Há dias em que vou despenteada. Com pressa, sem tempo a perder, saio com a roupa amarrotada do bolso de trás das tuas calças. Quando lá passo a noite, onde antes passeava a minha mão enquanto me passeavas a mim, acordo sempre tarde. É lá que recupero o sono perdido, perdida nos lugares onde te sentas e no sofá onde te deitas a ver televisão. Às vezes deves sentir um apertão, desculpa-me por te beliscar, mas quando te deitas para o meu lado do teu bolso, fico desconfortável, entendes? Gosto quando usas umas calças novas e eu perco algum tempo a conhecer-lhes a textura, a procurar na tua carne tapada o melhor encosto para a minha noite. Há quem me aborreça em tentativas vãs, a explicar-me que é impossível dormir nos teus bolsos, e com todo aquele bla bla que me tira do sério. Nessas noites acampo mais cedo na tua pele de ganga e reconquisto a certeza que são os outros que deliram quando dizem que não é possível que eu durma dentro de ti.


Posted by flor_do_mar at 12:46 AM | Comentários: (0)

maio 12, 2006

Banho de luz

São gigantes as manhãs em que acordo
com um crepúsculo abismado nos braços.

Entre o azul e o negro, dança-me um céu
na boca do beijo, à tua espreita.

Assomas-te à porta do meu ímpeto
e regas-me o mar de pele.

Estonteada.

É assim que fico ao acordar
quando me recordo do teu cheiro,
do teu olhar de trampolim para o mundo.

Posted by flor_do_mar at 12:51 AM | Comentários: (6)

maio 11, 2006

GTTP

Hoje escrevi e apaguei várias vezes a palavra ‘adoro-te’. Há alturas em que as palavras, por mais que caiam de pé, não caem bem. E por isso deixei-a cá dentro, deitada, a dormir mais um pouquinho.


Posted by flor_do_mar at 12:54 AM | Comentários: (2)

Ímpeto

A única coisa que me interessa nesta sala são as vidraças, disse alguém, e eu fiquei com vontade de ir para a janela ver o rio. Estar cá dentro e querer saber o que vai lá fora. É como no amor: temos uma flor no peito mas ansiamos por passeá-la no jardim. Eu tenho-te cá dentro, mas preciso da tua voz, escrita ou falada. Preciso desse pólen para nunca me esquecer dos teus traços, dos teus braços, da minha raiz.


Posted by flor_do_mar at 12:54 AM | Comentários: (0)

maio 10, 2006

M

Mas mói-me matar memórias macias... Mesmo maduras, mimam-me, mantêm-me menina. Mostram-me mais miradouros, menos melancolias. Moldam-me mestrias movediças, marcadamente misteriosas. Movimentam meigas madrugadas, mergulham membranas molhadas, musicam Maio - mês mudo, mensageiro meu. Meu mundo, meu melhor motivo, meu modo maior... morrerei missionária, maré, multidão. Mais medrosa, mas milagrosamente molécula. Moldura minguante, miniatura milésima, mas meteoricamente madrepérola. Mexe-me...


Posted by flor_do_mar at 01:43 AM | Comentários: (3)

maio 09, 2006

Mudança

"É algo que me está no sangue. Ou debaixo da pele. Ainda estou por decidir" (‘curtes’)

E eu diria que és doce. Como o teu sangue e a tua pele, quase que aposto.
És doce porque é doce quem me lembras. Há amores assim, nas palavras dos outros.

Posted by flor_do_mar at 04:25 AM | Comentários: (4)

maio 08, 2006

Amanhã, talvez

A luz do candeeiro borrifa-me os olhos com segredos dos quatro cantos desta sala. Aqui mesmo, onde o amor costumava sentar-se e estender as pernas, existe uma gruta de infindáveis planos que ficaram de pé. Mas porque o futuro é sempre amanhã, acredito em todas as improbabilidades desta noite.


Posted by flor_do_mar at 03:22 AM | Comentários: (2)

Would you hug me?

Ontem vi uma t-shirt azul que dizia: ‘Já abraçaste a minha t-shirt hoje?’ Era simples e encantou-me. Será algo desse género que me apetecerá perguntar-te se um dia voltar a ver-te. ‘Há quanto tempo não abraças a minha roupa?’. Assim. Sem tirar nem pôr.


Posted by flor_do_mar at 12:58 AM | Comentários: (2)

Balanço

“Ambos sabemos que depois vamos continuar a bater na mesma tecla.
Tu a queres saber como vai continuar a ser e eu sem poder responder-te”

Sei que não vale a pena andar sempre a pensar no que poderia ter feito de diferente. As nossas atitudes, com os erros que possam implicar, só podem ajudar-nos no caminho em frente. Estive a reler algumas conversas... e eu era tão chata. Se me apanhasse agora pela frente com aquela miúda de há dois anos, teria uma séria conversa com ela. Mas acabou por ser o tempo a torná-la naquilo que sou hoje. Não sei se sou melhor ou pior, mas sou diferente de certeza. E gosto mais de mim assim. E de ti também, porque te entendo melhor.


Posted by flor_do_mar at 12:31 AM

maio 06, 2006

Still loving you... barrigufas

Tu rias e semicerravas os olhos quando gostavas do que te dizia. Parecia que querias perder-te naquele momento de paz, por entre o sorriso. Recordo-me vezes sem conta de como ficavas ainda mais bonito quando sorrias assim, como se não houvesse ontem nem amanhã, como se tudo pudesse parar ali, suspenso no tempo. Depois abrias de novo os olhos e eram ainda mais doces. Eu sentia que me beijavas com os olhos. Dizias que eu te transmitia tranquilidade. E mostravas-me metade da tua alma para que eu visse como encaixava tão bem na minha. Lembras-te de quando eu dizia que não me sentia feliz? Espero que nunca tenhas acreditado. Eu apenas queria mais, sem saber que há coisas que não se pedem, especialmente palavras. Especialmente quando recebemos tanta doçura no olhar que nos oferecem.


E agora aqui estou, dizendo-te tantas coisas que nunca te disse na devida altura. Sempre a recordar-me dos teus olhos, da tua boca, das tuas mãos. Depois de termos algo muito bom, quem vem a seguir está sempre em desvantagem. Quem se lembraria de me beijar à entrada e à saída do carro? De pousar a mão na minha perna enquanto não eram precisas mudanças? De me fazer rir com beijos cheios de piadas malandras ou de me deixar arrepiada com as reticências? Depois, quem vem a seguir, quer lá saber se eu gosto de Nesquik pela manhã...


Posted by flor_do_mar at 02:53 AM | Comentários: (3)

maio 05, 2006

Pull the trigger

Se eu soubesse que a minha vida acabava amanhã, faria nas horas que me restassem aquilo que hoje penso que seria loucura arriscar. Por vezes, é a perspectiva da morte que faz premir o gatilho da coragem.

(Na hora do adeus, procuramos o mais importante, sem medo de ouvir um ‘não’, porque queremos levar um sonho no colo em vez de partirmos de braços cruzados, mudos e surdos. Eu iria pedir-te um beijo.)


Posted by flor_do_mar at 02:18 AM | Comentários: (0)

Fogo

No incenso de uma noite à espreita
saiu para a rua a trovoada da minha voz.
Gritei a quem quis ouvir,
ao céu, à terra, às madressilvas e vitrais
que hoje foi por demais
quando te beijei à revelia do teu espanto
e me disse tua na palma fumegante do teu sexo.
Não posso fingir que não te conheço
nem sequer enrugar a pele sem te pedir mais
porque és tu quem me habita
quando o desejo se revela
sem roupas ou pudores nas minhas crateras.

Posted by flor_do_mar at 12:07 AM | Comentários: (0)

maio 04, 2006

Existes em tudo quanto tenho

Procurei-te nas gavetas, debaixo da cama, dentro dos teus chinelos, no gel esquecido no armário, nos tecidos húmidos para limpar as lentes dos óculos, na caixinha de Primavera, no açucareiro que me ofereceste, nas flutes daquele champanhe a dois, no cheiro da madrugada... e encontrei-te sempre em todo o lado.


Posted by flor_do_mar at 11:54 PM | Comentários: (0)

Plano

Trabalho o poema sobre uma hipótese: o amor
que se despeja no copo da vida, até meio, como se
o pudéssemos beber de um trago. No fundo,
como o vinho turvo, deixa um gosto amargo na
boca. Pergunto onde está a transparência do
vidro, a pureza do líquido inicial, a energia
de quem procura esvaziar a garrafa; e a resposta
são estes cacos que nos cortam as mãos, a mesa
da alma suja de restos, palavras espalhadas
num cansaço de sentidos. Volto, então, à primeira
hipótese. O amor. Mas sem o gastar de uma vez,
esperando que o tempo encha o copo até cima,
para que o possa erguer à luz do teu corpo
e veja, através dele, o teu rosto inteiro.

(Nuno Júdice)

Posted by flor_do_mar at 11:37 PM | Comentários: (0)

Os eleitos


(Foto de Emily Radosavljevic)

Procura-se um parágrafo redondo.

Tem nos bolsos uma parábola envidraçada
e guarda castiçais de pólen para soltar nas asas de quem sonha.

Quem o encontrar, deve soltá-lo sobre um salgueiro
e deixá-lo planar ao som de um verso solto nos cabelos do mundo.

Cabe-lhe escolher onde poisar hoje à noite
e será no sorriso dos mais crédulos que fará amor.

Posted by flor_do_mar at 11:10 PM | Comentários: (0)

De nenúfares, flores silvestres e coisas simples

Sabes, sempre sonhei que o homem da minha vida havia de oferecer-me um nenúfar. É uma das recordações que guardo do lago que havia no recreio da escola primária. Tinha tantos e tão bonitos! Tu nunca me ofereceste um nenúfar mas prendeste-me uma flor cor-de-laranja no cabelo que ainda guardo na minha caixinha com cheiro a Agosto. Ofereceste-me o ar campestre que me aduba o peito e sei que um dia saberei retribuir com papoilas, margaridas e girassóis a quem me olhar por dentro como tu do alto do teu zepelim.


Posted by flor_do_mar at 02:32 AM | Comentários: (2)

Di-vi-são

Sei de alguém que adora dividir palavras. Acho uma ideia bo-nita : )

Posted by flor_do_mar at 01:35 AM | Comentários: (0)

maio 03, 2006

Não sou do contra, sou assim mesmo

Sou um caso perdido para todos quantos não sabem o que é isto dentro de mim. Quem diz que já amou e não consegue entender-me é porque nunca amou assim. Não sei se amou melhor, mas sei que nunca amou assim. Esta espécie de amor é superior ao bem que desejamos para nós mesmos, porque o nosso bem resulta do bem que sentimos no outro, mesmo que siga um caminho diferente do nosso. Há quem lhe chame obsessão ou masoquismo, mas eu acho que é amor no estado puro, sem qualquer tipo de egoísmo. Eu não sei mais sobre o mundo ou sobre o amor do que qualquer outra pessoa. Mas sei mais do que qualquer outra pessoa sobre o meu amor.


Todos os dias nasce uma revolução aos meus pés e só eu sei como celebrá-la. Desculpem-me os descrentes, mas sei do que falo. Se me faz mal? Se me impede de seguir em frente? Talvez. O amor não devia fazer-nos dessas coisas, dir-me-ão. Talvez. Mas por que razão está estabelecido socialmente que não devemos amar quem não nos ama? Isso só nos faz mal se deixarmos. Não digo que que não me falta algo, claro que falta. Até poderei seguir a minha vida com um amor diferente, mas nunca com um amor igual a este. Como explicar isto a quem não ama assim? Que sei eu sobre o amor senão sobre o próprio amor que sinto? O meu coração tem razões que a vossa razão desconhece?


Posted by flor_do_mar at 11:09 PM | Comentários: (6)

Amor de dentro

Há coisas maravilhosamente doces
e a cumplicidade é uma delas.

Nada se perde, mesmo que tudo se transforme.

Posted by flor_do_mar at 10:48 PM | Comentários: (2)

Um sorriso basta

Não sei exprimir-me bem quando estou feliz. As palavras saem mas não me caem no colo. Basta-me estar assim, com um sorriso ‘ridículo’. Sabes... apetecia-me oferecer-te aquele livro que diz que não há coincidências. Mas sabe-me bem guardar para mim esta euforia de saber que a ligação se manteve, que a sintonia está intacta. Assim como o meu amor por ti. Estou feliz e isso basta.

(Já sei que alguém me dirá que continuo muito sebastianesca e que assim espanto a caça. Mas não há nada para caçar aqui... já me tornei cativa, há muito tempo, de quem estava atento. Acontece... e estou feliz, sei lá. Ridiculamente feliz.)

Posted by flor_do_mar at 10:02 PM

Quase

Quase que consigo ouvir a tua respiração junto ao meu pescoço. Quase que chego lá, ao momento do quase êxtase, quando amaste as minhas palavras sem me amares a mim. Quase que tenho vontade de te pedir uma mentira, uma daquelas que dure um dia inteiro, para quase me derreter na tua boca. Quase que acordo quando te sonho, mas quase é sempre mais além e nesse lugar quase despido não há onde guardar o teu sopro. Quase sempre desaguaste em mim como se tivesses nascido cá dentro. Guardo-te em mim um espaço, a tua sala de descanso quase feliz. E tu quase que vens.


(A pensar em quem quase me amou e dedicado a alguém que tropeça constantemente no ‘quase’ e que ainda não percebi se gosta disso. Isto quase parece um ‘ménage à trois’, mas é só fogo de vista. Ou quase.)


Posted by flor_do_mar at 01:19 AM | Comentários: (0)

maio 02, 2006

Nunca mais é amanhã

Há dias que sinto como intransponíveis. Até chegar o dia seguinte a provar-me o contrário.

Posted by flor_do_mar at 11:42 PM | Comentários: (0)

Encaixe


(Foto de Ana Mafalda Pereira)

Gostava de aprender a confiar nos tiros no escuro, sem sobressaltos, montada numa vertigem à hora do jantar. Seria junto a um salgueiro que me apaixonaria pelos teus dedos, certeiros na mira da minha origem. E depois havia de raiar o dia, cabisbaixo antes de nos ver, para então se derramar sobre a cidade e atingir lentamente a roupa interior pendurada no pensamento dos amantes adormecidos nos braços de uma raiz. Há algo de perfeito na linguagem das mãos quando o céu lhes bate de frente.

Posted by flor_do_mar at 11:14 PM | Comentários: (0)

As nossas asas

No próximo ninho com duas bocas à espera
nascerá um plágio do nosso amor.

(E depois, quando for altura de voar,
serão - ou não - felizes para sempre.
Depende do amor que lhes chegar à boca.)

Posted by flor_do_mar at 12:17 AM | Comentários: (0)